Jiddu Krishnamurti às vezes usava pequenas estórias ou piadas para descontrair o ambiente. Nelas encontramos alguns elementos religiosos, tais como o diabo, o céu ou o gurú. Se você é “religioso”, é possível que se sinta ofendido e que não continue a ler.


Talvez você se recorde dessa história: o diabo e um amigo caminhavam pela rua, quando viram adiante um homem abaixar-se e apanhar alguma coisa no chão, depois olha-la e guarda-la no bolso. O amigo pergunta ao diabo, "Que foi que ele apanhou do chão?" "Ele pegou um pedaço da verdade," responde o diabo. "Isso é um mau negócio para você, então," disse o amigo. "De jeito nenhum," responde o diabo, "Eu vou deixar que ele organize a verdade".


(do discurso famoso: A Verdade é Uma Terra Sem Caminhos, agosto 1929, em Ommen, Holanda)



Birla, o industrial

A história a seguir me contaram na Índia. Você já deve ter ouvido falar de Birla, um industrial de Calcutá, tremendamente rico, que possuía uma empresa que por muitos anos controlou o monópolio dos carros de passeio na Índia, fabricando os modelos Embaixador. Eram veículos mal-feitos, não muito confortáveis e com freqüência enguiçavam. Um dia Birla morre e vai para o céu. Encontra com São Pedro nos Portões Cor de Pérola que lhe pergunta, 'Quem é você, por gentileza?' 'Sou o Birla', responde ele um pouco irritado por não ter sido reconhecido de imediato. São Pedro consulta uma lista de nomes. 'B-B-Birla. Sinto muito. Seu nome não está na lista. Acho que você não poderá entrar no céu.' Bila protesta irado, 'Eu sou Birla, o industrial! Tenho que estar nessa lista! Olhe novamente. B-i-r-l-a.' São Pedro se surpreende com a arrogância do homem e lhe diz, 'Eu não conheço ninguém com esse nome'. 'Por Deus!' exclama Birla, 'Todo mundo me conhece - todo mundo. E você está tentando me dizer que...' Pedro diz ao homem com muita educação e firmeza, 'Senhor, por favor não se exalte. Isso não vai lhe ajudar aqui. Seu nome não está na lista. Nunca ouvi falar do senhor e acho que o senhor não terá permissão para entrar no céu.' Por um momento Birla fica arrasado e recolhe-se em amargo silêncio. São Pedro fica com pena dele e diz, 'Talvez você possa nos dar uma boa razão para lhe deixarmos entrar.' Birla imediatamente se refaz e arrisca, 'Eu ajudei a causa de muitas religiões, gastando milhões e milhões na construção de templos, mesquitas e igrejas.' São Pedro responde, 'É natural, todas as pessoas ricas fazem isso, porque querem ficar famosas e economizar nos impostos. Mas isso não as qualifica como dignas para entrar no paraíso'. Birla, já se sentindo frustrado, grita: 'Olha aqui, meu camarada, ninguém em qualquer lugar da Índia ou do mundo fez mais pelos trabalhadores e suas famílias do que eu, ninguém jamais construiu centenas de hospitais, orfanatos, asilos, escolas e universidades.' São Pedro diz, 'Também não tenho certeza se isso conta. Afinal, essas pessoas deram a sua energia, seu trabalho, suas vidas para que você se tornasse um ricaço. Não, não - nada disso importa aqui no céu. O que queremos saber, e essa é a verdadeira questão, é: o que você fez por Deus?' Birla, num frenesi, começa a revolver a memória e finalmente seu rosto ganha um novo brilho.

Com satisfação ele responde, 'Bem, senhor, há anos que estamos produzindo o famoso modelo Embaixador. E sempre que alguém abre a porta de um carro desses, exclama, 'Oh, meu Deus!'


Página 189 Livro: Crônicas de cozinha: 1001 almoços com J. Krishnamurti



Tradução: Roberto de Paula





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