A YOGA DA CIÊNCIA


C. Ton Phan



A ciência pode ser definida como a interação entre inteligência e matéria.


Lemos na "Doutrina Secreta" a seguinte afirmação, que considero o ensinamento central da Teosofia sobre a natureza do homem: "Agora torna-se claro que existe na natureza um esquema evolucionário triplo para a formação dos três Upadhis periódicos, ou antes, três esquemas de evolução separados, que em nosso sistema estão inextricavelmente entrelaçados e intimamente misturados em todos os pontos. São eles as evoluções Monádica (ou Espriritual), a Intelectual e a Física. Cada um desses três sistemas tem suas próprias leis, e é governado e guiado por diferentes grupos de Dhyanis ou Logoi superiores. Cada um encontra-se representado na constituição do Homem, o Microcosmo do grande Macrocosmo. A união nele dessas três correntes o torna o ser complexo que é agora".

De acordo com essas linhas há no homem não um, mas três centros: o Espiritual, o Intelectual e o Físico. Naturalmente neste "entrelaçamento e íntima mistura", cada um desses centros, enquanto tem primariamente suas próprias características, é matizado pelas dos outros dois. Já que o Intelectual atua como uma ponte entre o Espiritual e o Físico é também normal que ele tenha íntima relação com ambos. No processo de evolução a linha Física foi a primeira a entrar em atividade. Esta linha tem passado pelo processo de involução e chegado a um nível de construção formal bastante alto. Já nesses primeiros estágios, a Inteligência começou a interferir, discretamente a princípio, e então cada vez mais ativamente. É através da influência guiadora da Inteligência que se realiza a construção das formas, a qual é chamada pela ciência de "evolução".

Por ocasião da individualização, na criação de um homem, o centro Espiritual penetra no Intelectual e, através deste, no Upãdhi físico. É então que a Inteligência desenvolve uma percepção cada vez mais consciente da evolução física. Este desenvolvimento parte de um envolvimento inconsciente na construção das formas primitivas até chegar à "seleção natural", que resulta em formas cada vez mais aptas a transmitir a vida, e, finalmente, até a compreensão das leis que governam a organização da matéria. Este último estágio é chamado Ciência.

No estágio humano da evolução, a ciência, assim, pode ser vista como um esforço da Inteligência, já consciente, no sentido de descobrir como as leis da matéria atuam: de observar os eventos e processos naturais da vida; de distinguir suas várias expressões através de distintas formas; de agir sobre a matéria através de experiências voluntariamente planejadas e, a partir dos resultados desses atos, compreender as leis essenciais que governam as operações da matéria. Essa parte do processo de descobertas pode ser resumido em: observação, experimentação e dedução.

Depois a Inteligência prossegue em mais um passo: comparando as leis deduzidas de vários aspectos da matéria ela torna-se consciente do fato de que essas leis parecem ser similares para séries de condições similares, em formas ou aspectos diferentes. Ela realiza então uma operação de síntese, da qual enuncia leis universais, que são aplicadas a todos os níveis de matéria. Esta etapa pode ser denominada "síntese-indução" ou inferência.

Estas duas etapas exigem uma "perícia" que só pode ser alcançada por longo e vigoroso treinamento. A vontade, sob a influência do centro espiritual no homem, compele a mente a obedecer a estas leis. O trabalho científico deve ser realizado de acordo com regras definidas e, portanto, encaro a Ciência como uma autêntica Yoga.


Os "angas" da Yoga da Ciência


Se considerarmos o modelo da obra de Patânjali sobre Raja Yoga, podemos enumerar, de maneira ordenada, as diferentes partes (angas) da disciplina da Ciência. Assim como nos "Yoga Sutras", podemos ver, também aqui, um número de etapas de "abstenção", equivalentes, ou mesmo idênticas, às etapas de "Yama" da obra de Patânjali.

Antes de entrar nesses detalhes, poderíamos descrever a atitude geral da Ciência ante o termo Racionalismo. Este termo, tem sido, infelizmente, mal usado e mal compreendido e, portanto, adquiriu uma conotação bastante negativa. Se nos fixarmos à etmologia do termo, ele significa precisamente "o método de raciocínio", porque a Ciência, por ser uma operação da mente, precisa seguir estritamente o processo fundamental do acesso intelectual aos fatos, que é o raciocínio lógico. Racionalismo então implica na vontade de entregar-se à lógica, de aceitar o resultado do raciocínio lógico estrito, não importando qual seja esse resultado. O funcionamento de uma mente científica pode ser, tecnicamente falando, uma racionalização (raciocínio), isto é, a colocação em atividade do raciocínio lógico; mas por trás desse processo intelectual há uma vontade sólida e forte de funcionar por, e somente por raciocínio lógico. Racionalismo é, portanto, uma disciplina estrita, sem qualquer conotação filosófica ou religiosa. Infelizmente a escola francesa do Racionalismo desviou-se do verdadeiro significado do termo e deu à palavra o sentido de "oposição à crença religiosa".


Consideremos agora as regras da Yoga da Ciência:


1. Abstenção:


1.1 De Emotividade: Segue-se à definição do termo racionalismo que a primeira e fundamental regra na pesquisa e no pensamento é não permitir que qualquer emoção influencie o raciocínio. É por esta razão que o racionalismo provoca uma certa insensibilidade.


1.2 De Seletividade: Isto significa que, ao se estabelecer um conjunto de condições para uma experiência, deve-se aceitar os resultados decorrentes, sejam eles quais forem. Não se pode dizer: este resultado não me serve, está longe demais do resultado médio, eu o rejeito. Deve-se considerar todos os dados.


1.3 De Confiança Irrestrita em si próprio. Um cientista acredita em si mesmo, porque conhece o que já fez, mas deve cuidar-se em não considerar que apenas o que ele faz é bom. Ocorre muito freqüentemente que o cientista se torna cego para suas próprias inconveniências e deficiências, por estar muito envolvido com a sua própria maneira de trabalhar. Deve-se portanto olhar os próprios dados com o mesmo olho crítico com que se olha os dados dos outros: impessoalmente e seguindo a lógica, apenas.


1.4 De Confiança Irrestrita em outros: Esta regra proíbe que se aceite, sem questionar, um conjunto de dados, simplesmente porque o conjunto foi obtido por alguém em que se acredita, se ama ou venera. Mesmo quando se trata de seu próprio mestre, deve-se esmiuçar os dados com o mesmo olho frio, lógico e crítico.


1.5 Não Inferência: Ao faltar um detalhe numa série de dados, ocorre às vezes concluirmos que ele deve estar dentro dos limites dos dados habituais. Este é um hábito perigoso, e tais suposições geralmente se provam erradas.


Agora, de modo que estas regras negativas possam ser seguidas, as seguintes, positivas, devem também ser observadas. Todas essas regras devem ser tomadas como um todo.


2. Regras positivas:


2.1 Conveniência do instrumento: A ciência experimental geralmente usa instrumentos. A fim de podermos confiar nos dados obtidos através destes instrurnentos, eles devem não só estar em perfeitas condições de trabalho, mas também ser usados de maneira apropriada. Condições de trabalho perfeitas significam a promoção de manutenção técnica regular, de modo que a resposta do instrumento seja:


2.1.1 precisa: o instrumento deve ter a faixa de sensibilidade necessária para a experiência particular realizada.


2.1.2 confiável: a resposta deve ser reproduzível; por exemplo, o mesmo objeto pesado três vezes consecutivas deve ter a mesma leitura na escala usada.


A utilização apropriada do instrumento exige a perícia necessária por parte do usuário. Um instrumento simples pode requerer apenas alguns minutos para a devida familiarização, mas instrumentos elaborados e modernos geralmente requerem uma boa formação teórica e longo treinamento. Por exemplo, para se usar adequadamente um cromatógrafo de gás é necessário ler-se vários livros sobre a teoria antes de arriscar-se na prática. Ambas operações poderiam levar alguns 6 meses antes que leituras confiáveis do instrumento fossem obtidas. Quantos estudantes de Yoga já tiveram essa paciência? Uso apropriado também significa que o instrumento deve ser utilizado na faixa de sensibilidade para a qual foi montado, e operações fora destes limites, provocadas por preguiça ou necessidade, não são permitidas, porque geralmente as extrapolações não dão resultados precisos.

Por instrumentos defino também os métodos analíticos. Titulações (análises volumétricas) com uma bureta são geralmente fáceis, mas alguns métodos são mais complicados e requerem longa prática antes que a habilidade necessária seja adquirida.


2.2 Uso honesto dos instrumentos: Todos os estudantes de Ciência sabem que é geralmente possível obter as leituras desejadas manipulando-se a estrutura do instrumento. Numa experiência séria, uma vez que o instrumento é montado para uma certa faixa de sensibilidade, deve-se respeitá-la com todas as amostras medidas. Primeiramente, isto se deve ao fato de que os componentes materiais do instrumento têm uma resposta definida numa certa faixa, que poderia ser bastante diferente em outra. Em segundo lugar, melhora-se o significado estatístico dos resultados obtidos quando a medição é feita na mesma faixa. Isto requer séria preparação para cada experiência e para cada medição. A quantidade correta de material deve ser experimentada, ou a faixa correta de diluição deve anteceder à medição.


2.3 Entrega à verdade: Uma vez que as duas regras anteriores foram obedecidas, o veredicto deve ser aceito, qualquer que seja ele. Esta regra é absoluta e as implicações são numerosas. Primeiramente uma abertura mental absoluta a toda verdade, não importa quem a encontre, ou como seja encontrada, supondo-se a condição de que a metodologia experimental esteja correta. Em segundo lugar, deve ser elaborada uma hipótese de trabalho correta, de acordo com uma segura formação teórica baseada em resultados experimentais anteriores, que deve predizer novos resultados de acordo com leis científicas autênticas. Em terceiro, qualquer resultado obtido através da metodologia correta, encontrada na teoria de trabalho, deve ser aceito, ajuste-se ele à teoria ou não. Esta submissão à verdade é uma regra tão necessária que um verdadeiro cientista torna-se um homem naturalmente fiel à verdade. Eu tenho a maior admiração por meu próprio mestre não só porque ele é um bom cientista, mas sobretudo porque é um homem correto.


2.4 Conclusão correta: Após ter conseguido o instrumento certo, tê-lo ajustado à sensibilidade adequada, e ter aceito os resultados obtidos, compete ao cientista extrair a conclusão correta. Esta também é uma operação altamente intelectual. Ser capaz de concluir corretamente requer conhecimento perfeito da teoria, base da experiência. Requer também conhecimento completo dos dados anteriores, publicados ou não. Então, o trabalho principal é comparar os resultados obtidos, analisados adequadamente através de métodos estatísticos, com os resultados esperados a partir da teoria de trabalho. Deve-se ser estritamente honesto; para se discriminar os dados apropriados dos que não são, devemos objetivamente declarar qual percentagem deles se ajusta à teoria de trabalho e qual não se ajusta. Deve-se ter a mente aberta para não se afirmar que os que não se ajustam estão errados ou "não servem". Regra geral, após a análise estatística, os valores que se ajustam variam, de um modo aleatório, em torno dos valores médios. Mas os resultados que não se encaixam são: ou indicadores de erros experimentais ou variações não aleatórias, significando isto a não previsão deste tipo de resultado na teoria de trabalho, o que em si é um novo achado, uma inusitada descoberta.

Talvez possa citar um exemplo pessoal. Durante um estudo sobre a taxa de respiração dos tecidos internos de maçãs, o técnico mostrou-me a lista de resultados e eu assinalei um número deles que não se ajustavam ao comportamento respiratório normal dos tecidos vivos. Pedi-lhe para que repetisse a experiência uma e duas vezes mais. Os mesmos resultados apareceram. Fui então forçado a concluir que alguns dos tecidos testados comportavam-se como fotossintetizadores (folhas verdes). A idéia não era atraente porque lidávamos com tecidos internos, "que nunca recebiam qualquer luz" e não deveriam teoricamente realizar fotossíntese. Mas não pude encontrar outra explicação. Chequei minha teoria através da microscopia eletrônica e descobri, desta forma, um tipo novo muito especial de cloroplasto presente nos tecidos internos da maçã, e diferente daquele dos tecidos externos.


2.5 Discriminação: Enquanto que na maioria das outras Yogas discriminação é a primeira qualificação, eu a coloco, preferivelmente, como a última etapa na Yoga da Ciência. Discriminação, na verdade, não é um mero processo intelectual. Toda a Yoga da Ciência é uma disciplina intelectual e a discriminação consiste em checar um conceito intelectual contra a idéia correspondente ao plano mental superior, estando portanto, além do processo científico normal. Mas uma vez que a série completa das etapas acima esquematizadas foi completada, a intuição deve entrar em funcionamento e a discriminação deve ocorrer.


Vejo três aspectos da discriminação:

2.5.1 Desafio à conclusão obtida: Todo treinamento em trabalho científico consiste na checagem e re-checagem. Uma vez que conclusões são extraídas de uma experiência, elas têm de ser duplamente verificadas. Em outras palavras, devem ser desafiadas por seu próprio criador. O cientista verdadeiro é o seu próprio advogado do diabo.

2.5.2 Uma vez que a conclusão tenha resistido ao desafio, ele deve verificar a teoria de trabalho. Os resultados podem ter sidos obtidos através de urna correta metodologia, mas está a teoria de trabalho realmente correta? A rechecagem, antes de urna publicação, é necessária.

2.5.3 Neste processo de verificação, de desafio, deve-se utilizar a própria intuição para adivinhar (sim, adivinhar - nada há de não científico na adivinhação) o que poderia ter sido esquecido na teoria, o que poderia ter passado desapercebido no procedimento experimental. Este deve ser um exame metódico, lógico e objetivo.


Quando não é mais possível qualquer desafio, então o cientista poderá proclamar seu achado. Um artigo poderá ser escrito, ou, mais frequentemente, uma última checagem é feita: ele apresenta um comunicado em uma reunião científica, a fim de haver exame crItico por parte de seus iguais, outros cientistas, que não tenham sido tendenciados pelo seu próprio "background" (base, fornação científica) e sua própria teoria. Assim, o artigo é escrito, submetido a revisões (geralmente 3) que o dissecam, tornando-o preciso, retificado, complementado, antes de ser publicado. Geralmente 6 meses de trabalho seriam cobertos por 3 a 4 páginas de um artigo. Artigos mais longos representariam o resultado de 2, 3 ou 4 anos de trabalho e 3 a 6 meses de revisão e edição.

Eu espero que este artigo venha jogar alguma luz sobre o trabalho paciente, auto-limitante e autocrítico do cientista. Geralmente, aspirantes espirituais tendem a desprezar os cientistas porque “eles não sabem o que pode ser percebido através da intuição". Cientistas suportam longo e extenuado treinamento; um cientista verdadeiro é despretensioso, modesto e dedicado em sua vocação.





C. Ton Phan é Professor em bioquímica e fisiologia de plantas na

Universidade de Montreal - Canadá.

Artigo publicado no "The American Theosophist - Fall Special Issue /l980"

traduzido por Célia Moraes para a revista Logos no 5






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