O VEGETARIANISMO À LUZ DA TEOSOFIA


Annie Besant


Conferências



O próprio título da conferência que hoje me proponho fazer-vos, indica-vos sem dúvida, os limites que, praticamente, imporei aos dois assuntos que, tal como são anunciados, determinam o que tenho para dizer; desejo na verdade, falar-vos de Vegetarianismo à luz da Teosofia.

Podeis, é certo, discutir sob diferentes pontos de vista a teoria e a prática do vegetarianismo; podeis, por exemplo, encarar a questão sob o ponto de vista da saúde física ou abordá-la pelos seus lados fisiológico ou clínico; ou ainda apresentar poderosos argumentos, em seu favor, baseando-vos nas relações que existem entre o vegetarianismo e o uso, ou antes o abuso, dos licores fortes, a absorção do álcool e da carne estando estreitamente ligadas e sendo muito variáveis no mesmo indivíduo. Também vos é possível estudá-la sob outros pontos de vista familiares a muitos de entre vós, que achareis nas revistas e conferências especiais do vegetarianismo.

O mesmo sucede com a Teosofia; se eu devesse tratá-la isoladamente, dar-vos-ia uma idéia da sua significação e das suas doutrinas, não sem lhe juntar uma parte histórica, e argumentos baseados sobre a natureza razoável dos seus ensinamentos gerais e sobre o valor da sua filosofia para a humanidade. Mas, desejo abordar os dois assuntos nas relações que os ligam um ao outro, quero dizer, que vou tentar fornecer a alguns de entre vós, alguns argumentos, segundo uma linha de pensamento que vos é, talvez, menos familiar do que aquelas pelas quais o vegetarianismo é geralmente conhecido.

Vou, igualmente, experimentar mostrar àqueles de entre vós que não são vegetarianos, que, sob o ponto de vista teosófico, é possível fornecer outros argumentos, além daqueles que se ligam ao sustento do corpo físico, à química, à fisiologia ou à influência do vegetarianismo sobre o comércio das bebidas; é, portanto, sob uma forma de pensar inteiramente distinta destas, que vou tratar do assunto; o seu valor provirá talvez, precisamente, da diferença existente entre ela e as outras. Esta diferença é comparável àquela que se pode estabelecer entre os reforços novos e um exército que já tivesse entrado em luta contra forças superiores e consideráveis.

O vegetarianismo, do qual vos quero hoje falar, é aquele que todos conheceis, aquele que implica a abstenção de todos os alimentos que imponham a morte dos animais ou atos de crueldade para com eles. Portanto, devo dizer-vos que não adotarei uma argumentação análoga àquelas que dividem os vegetarianos entre si; não falarei, por isso, nem de cereais, nem de frutos, nem da variedade desses regimes, diferentes e que no presente momento são a causa de tantas desuniões. Tomarei a questão num sentido geral, considerando-a sob o ponto de vista da abstenção de toda a alimentação de proveniência animal, e tentarei apresentar razões a favor desta abstenção, razões que podem ser tiradas dos ensinamentos dados pela Teosofia.

Ainda que eu considere a minha tese como perfeitamente estabelecida, teosoficamente falando, devo dizer-vos que me não acho, de maneira alguma, no direito de obrigar a Sociedade Teosófica no seu conjunto pelo que respeita a validade desta tese; com efeito, muitos de entre vós não o ignoram, não exigimos das pessoas que entram na Sociedade Teosófica a aceitação das doutrinas conhecidas sob o nome genérico de Teosofia; nós apenas pedimos que aceiteis a lei da Fraternidade Universal, e que procureis a Verdade, e isto num espírito de cooperação, de preferência a um espírito de competição. Significa, também, que exigimos dos nossos membros abstenção de ataques agressivos contra as idéias religiosas ou quaisquer outras, que, possivelmente, alguém possa manifestar, e que mostrem aos outros o mesmo respeito que pedem para si, na expressão das suas opiniões. Contentamo-nos, apenas, com esta obrigação. Nós não tentamos impor as nossas idéias teosóficas àqueles que entram na Sociedade. Aqueles de entre nós que as aceitam como verdadeiras, adquirem, por este mesmo fato, toda a confiança na própria Verdade, portanto, deixamos os nossos membros perfeitamente livres de as aceitar ou de as recusar. Dito isto, não esqueçais que, falando, não comprometo a Sociedade. Os aspectos que vos exporei, são tirados da Filosofia, a qual pode ligar ou não qualquer membro da nossa Sociedade.


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A primeira série de argumentos, sobre a qual chamarei a vossa atenção, acerca do Vegetarianismo à luz da Teosofia será a seguinte: A Teosofia considera o homem como fazendo parte de um grande sistema de evolução; no mundo, o homem é nela considerado como um elo de uma grande cadeia, cujo primeiro anel manifestado faz parte da própria Vida divina, e que, elo após elo, constitui as grandes Hierarquias ou classes de inteligência espirituais em evolução.

O homem, ao deixar a sua morada divina original, entra na hierarquia das entidades espirituais, para tomar, enfim, contato com a manifestação que nós conhecemos como sendo o nosso próprio mundo. Este mundo, expressão do pensamento divino, está inteiramente penetrado pelo divino, sendo toda a lei a expressão desta natureza divina; o próprio estudo da manifestação duma lei é o estudo da Inteligência divina na natureza.

Assim, o mundo não deve ser considerado como constituído, unicamente, por matéria e força (opinião da ciência materialista), mas como sendo, essencialmente, vida e consciência evoluindo, para se manifestar nisso que nós conhecemos como matéria e como força.

Partindo deste princípio, e seguindo até ao ponto mais baixo deste primeiro ciclo, a que chamaremos a evolução da vida, chegamos ao reino mineral, donde a vida tende a tornar a subir num ciclo ascendente, e no qual a matéria se torna cada vez mais plástica, sob o impulso desta vida, até que do mineral evolua o vegetal.

Desde então, à medida que a matéria do reino vegetal se torna ainda mais plástica, e por conseguinte, mais apta a exprimir a vida e a consciência que nela atuam, chegamos à evolução do reino animal, com as suas energias mais distintamente diferenciadas, com a sua crescente complexidade de organização, com o seu poder aumentado pelo sentir do prazer e do sofrimento, e, acima de tudo, com uma individualidade muito mais marcada; estas criaturas, mais e mais se individualizam, separando-se por assim dizer, cada vez mais, do grupo a que pertencem, começando a mostrar os germes duma consciência mais elevada, esta vida primária que em tudo vive, tornando-se capaz de se exprimir mais completamente, num sistema nervoso mais altamente organizado; ela é como arrastada a isso por respostas mais numerosas às influências do universo exterior.

Então, elevando-se mais, encontra uma mais alta, bem mais alta, manifestação na forma humana, a qual animada pela alma e pelo espírito - a alma que, no corpo, se manifesta como inteligência, e o espírito que, pela evolução da alma, se manifesta, gradualmente neste universo exterior.

Desta maneira, em virtude desta alma que se torna consciente, em virtude desta evolução mais alta - a mais alta que se possa efetuar numa forma material do nosso mundo, - o homem é por assim dizer, a expressão mais completa desta vida evolutiva, deve por conseqüência, ser também a expressão mais perfeita desta manifestação sempre crescente da lei.

Mas, a vontade que se desenvolve no homem, que tem o poder de escolher, que é capaz de dizer: «Eu quero» ou «Eu não quero», que se separa das formas mais baixas das criaturas vivas, por este mesmo poder de determinação consciente; que, precisamente, porque está prestes a exprimir o divino, mostra estas marcas de pensamento, de ação expontânea, características da Vida suprema evoluindo na matéria, é esta vontade que dá ao homem uma dupla possibilidade, uma responsabilidade maior, um destino mais alto ou mais degradado.

Ora, este poder da escolha é esta lei que nas formas inferiores da vida, está impressa na forma, e à qual a forma obedece, por assim dizer, pelo caminho do constrangimento; a lei que, no mundo mineral, não deixa escolha ao átomo mineral; a lei que, no mundo vegetal, é uma lei coercitiva, um desenvolvimento segundo certas linhas definidas, sem grande possibilidade de lhe resistir, tanto quanto nós possamos julgar; lei que no animal, se exprime como instinto, instinto ao qual o animal obedece sempre; essa lei, se a observamos na sua ordem geral, está sujeita a mudanças quando se trata do homem.



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O homem é um elemento de desordem na natureza, é ele que, ainda que dotado das mais altas possibilidades, semeia a discórdia no reino da lei; é ele que em virtude da sua vontade desenvolvida, tem o poder de se opor à lei, e dela triunfar, aparentemente, por um certo tempo. Com o decorrer do tempo, portanto, é a lei que o derrubará. Sempre que ele caminha contra a lei, esta faz-se sentir pelo sofrimento que inflige; ele não a pode quebrar, o que não impede que ele possa causar desordens e perturbar a harmonia; ele pode, pela vontade que é sua, recusar seguir o caminho mais elevado e o melhor, e, deliberadamente, escolher o pior e o mais baixo.

Precisamente, por causa deste poder - o poder da escolha - tem ele possibilidades mais altas que aquelas oferecidas aos mundos mineral, vegetal e animal.

Submeter-se conscientemente à lei é colocar-se num grau de harmonia mais elevado do que ser, simplesmente, um aparelho movido por ela, sem fazer agir a vontade que escolhe, conscientemente, o que há de mais alto, e, por conseqüência, o homem encontra-se na seguinte situação: - pode cair mais baixo que o animal, mas pode, também, subir infinitamente mais alto.

Assim, o homem assume a responsabilidade de ser o senhor que domina a natureza inferior, aquele que, por assim dizer, amolda o mundo, gradualmente, em formas mais elevadas de existência, em tipos de vida mais nobres. O homem, por onde quer que fosse, deveria ser o amigo de todos, o apoio, o protetor de todos, exprimindo na vida diária a sua natureza, que é toda amor, e exercendo sobre toda a criatura que lhe seja inferior, não só a vigilância que lhe deve ser aplicada para a educar, mas, também, o amor que deve ser empregado para com ela para a ajudar a elevar-se na escala da existência.

Apliquemos, portanto, este princípio do lugar que o homem ocupa no mundo, vice-rei, no sentido real do termo, governador e monarca do mundo, mas com o poder de ser um mau ou um bom soberano, responsável, ante o universo inteiro, do uso que fizer dos seus poderes.



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Consideremos, sob este aspecto, o homem nas suas relações com os animais inferiores. É evidente, que se nós vemos o homem matar por prazer, pensamos que ele rebaixa o seu título de homem. É indigno dele ir junto dos seres que vivem felizes nos bosques e levar-lhes o sofrimento, o medo, o terror, o pavor, semeando a destruição por onde passa; não se armará com uma espingarda, com um anzol, ou com outras armas que é capaz de construir - não o esqueçamos - unicamente em virtude da inteligência que se desenvolveu nele.

Prostituindo estes poderes superiores do intelecto, para fazer de si mesmo o inimigo mais mortífero das outras criaturas sensíveis, que com ele partilham o mundo, ele emprega a inteligência, que deveria ser um meio de ajudar a educar os seres inferiores, em levar por toda a parte novas formas de miséria e energia destruidoras. Se o homem vai a um lugar onde se encontram os animais inferiores, eles fogem adiante dele, porque a experiência lhes ensinou os perigos que correm na sua presença. Se ele vai a qualquer sítio retirado da Terra, onde raras vezes os homens pisaram o chão, vê aí animais sem medo algum e nas disposições mais amigáveis; e pode andar pelo meio deles sem que evitem o seu contato. Consultai os relatórios dos viajantes que percorreram certas regiões onde o homem nunca até então tinha penetrado e aí lereis que podiam passar por meio de bandos de aves e outros animais, como um amigo por entre amigos. E é somente quando o homem começa a abusar da sua confiança, para os matar, que por experiência sabem o que a presença do homem significa para eles, e que aprendem a lição da desconfiança, do medo e que fogem à sua aproximação. De forma que em qualquer região civilizada, por toda a parte onde há um homem nos campos ou nos bosques, tudo que vive, foge ao ruído dos seus passos; para estas criaturas, ele não é o amigo, mas aquele que traz consigo o alarme e o terror, por isso procuram evitá-lo.

E, contudo, têm havido homens cujo espírito de amor irradiava com tal brilho, que os seres vivos do campo ou da floresta se agrupavam em sua volta e os seguiam sempre; homens como S. Francisco de Assis, do qual se conta, que, quando passava por um bosque, os pássaros voavam para ele e pousavam sobre ele, de tal maneira sentiam o amor que emanava da sua pessoa e irradiava como uma auréola por toda a parte onde passava.

Da mesma forma na índia encontrareis que não faltam destes homens, nos quais se mostra o mesmo espírito de amor e de compaixão, e tanto nos bosques como na selva, nas montanhas como nos desertos, estes homens podem ir onde quiserem e os animais selvagens não os atacarão. Poderia contar-vos a história de yoguis, inofensivos em todos os atos do seu pensamento e da sua vida e que atravessam a selva, onde tigres estão escondidos e sucede, às vezes, que o tigre vem deitar-se aos seus pés e lambê-los, tão pouco ameaçador em face do espírito de amor, como pode ser um gatinho. Assim deveria ser a nossa atitude ante tudo que vive e assim seria, se nós nos mostrássemos afetuosos para as criaturas inferiores, em vez de as tratar como inimigos; ainda que sejam precisos muitos séculos para reparar o mal resultante de um passado manchado de sangue, pode contudo, tentar-se fazê-lo; a afeição deveria de novo renascer, porque todo o homem, toda a mulher que trata afetuosamente as criaturas inferiores, junta a sua parte ao amor existente no mundo, ao amor que, finalmente, deve triunfar de tudo.

Passemos deste dever que incumbe ao homem como monarca do mundo, ao ponto seguinte, que no ensino teosófico proíbe a morte de tudo o que vive. Alguns de entre vós sabem, sem dúvida, que uma parte do nosso ensino proclama que o mundo físico está interpenetrado e rodeado por um mundo de matéria, mais sutil, a que chamamos «astral»; nesta matéria sutil a que podeis chamar éter, se este nome vos é mais familiar, residem certas forças, tendes neste mundo o reflexo e a imagem do que se passa no plano material; os pensamentos igualmente aí tomam uma forma, as ações aí são refletidas e este mundo astral estende-se entre o mundo material e o mundo do pensamento. Este último mundo, cheio dos pensamentos dos homens, projeta estes pensamentos no mundo astral; eles formam aí uma imagem, que reage no mundo físico. É o que muitas vezes sentem os «sensitivos». Estes, quando entram numa casa, numa sala, numa cidade, podem dizer-vos, graças a uma impressão que eles próprios não poderiam, sem dúvida, explicar, alguma coisa das características gerais respeitantes à atmosfera desta casa, desta sala ou desta cidade - se, para eles, ela é pura ou impura, se lhes é simpática ou hostil, se sobre eles exerce uma inf1uência salutar ou perniciosa.

Uma das formas pelas quais podeis reconhecer o funcionamento deste mundo astral, é aproximá-lo no vosso pensamento, como o começa a fazer a ciência com o éter, de todas as correntes magnéticas e todas as ações elétricas.

Tomemos para exemplo a ação exercida por um orador sobre uma multidão. Ela é subordinada à presença desta matéria etérica, na qual operam as forças magnéticas, de forma que uma tese emitida pelo orador e carregada do magnetismo deste último, produz um efeito totalmente diferente sobre aqueles, aos ouvidos dos quais ele chega, daquele que produziria se se lesse simplesmente com a cabeça repousada, numa revista ou num livro. Porquê? Porque a força do orador, tomando forma nesta matéria subtil, servindo de médium entre ele e os seus ouvintes, coloca-a no diapasão das suas vibrações, carrega-se do seu magnetismo e as ondas que levantam, vão tocar a matéria similar nos corpos dos ouvintes; a onda precipita-se através da sala, e esta vibração de um único pensamento faz, no momento dado, que todos aqueles que lá estão sintam igualmente o seu poder, se bem que não possa repetir o mesmo mais tarde.

Muitas vezes, falando do alto de uma tribuna, podeis despertar o entusiasmo dos vossos ouvintes, quando a força magnética está num grau muito elevado, mesmo se eles não estiverem de acordo com os argumentos que lhes apresentais, e vereis então aplaudir vigorosamente, se bem que saibais convenientemente que estão em antagonismo com a idéia que acabais de expor. Encontrai-os no dia seguinte e achá-las-eis muito chateados contra si próprios, por se terem, momentaneamente, deixado arrastar. Que explicação dar a este fato? É que esta simpatia magnética, este agitar do éter ou de ondas vibratórias, atingindo-os como ao resto do auditório, e tendo o seu corpo, e cérebro, respondido a estas vibrações, eles deixaram-se, temporariamente, dominar sob a ação magnética do orador.



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Dito isto, e este exemplo é simplesmente destinado a mostrar-vos o que eu entendo por esta matéria astral, a maneira pela qual ela é posta em vibração pelas correntes magnéticas, pensai um momento na matéria astral, sob o ponto de vista teosófico, como interpenetrando e envolvendo o nosso mundo; e depois, transportai-vos pelo pensamento, a um matadouro. Tentai, pela imaginação, se puderdes, se por acaso não terdes ainda tido o infortúnio de ver um, na realidade, de notar as paixões e as emoções que ali surgem, não no homem que mata e do qual não me ocuparei por ora, mas nos animais sacrificados! Notai o terror que os fere, quando sentem o cheiro de sangue! Vede o sofrimento, o temor, o horror em que eles se debatem, para escapar aos caminhos desviados por onde os arrastam! Segui-os até o matadouro, se tendes para isso coragem; olhai-os quando forem mortos; depois deixai a vossa imaginação andar um passo mais, ou se possuirdes o poder subtil de perceber as vibrações astrais, olhai e lembrai-vos do que vedes: imagens de terror, de medo, de horror, quando a vida é brutalmente arrancada do corpo e que a alma animal, com todo o seu terror e o seu horror, entra no mundo astral para aí ficar, por um lapso de tempo considerável, antes de se desagregar e morrer. Lembrai-vos que por toda a parte onde tem lugar esta matança de animais, se cria um foco favorável a todas estas paixões de horror e de terror, e estas se refletem no mundo material, se refletem no mental humano, e quem é sensitivo, quando se aproxima da vizinhança de um destes lugares, vê, sente estas terríveis vibrações que o fazem sofrer e adivinhar de onde vêm.

Agora, imaginai que ides a Chicago. Eu tomo este exemplo porque é um ponto onde eu própria senti esse efeito. Chicago, como sabeis, é essencialmente um lugar de carnificina e é, julgo eu, a cidade que possui as disposições mais aperfeiçoadas que o engenho humano pôde descobrir para dar a morte aos animais, onde é efetuada em grande escala por meio de máquinas e onde milhões de criaturas são degoladas todas as semanas.

Ninguém que seja um pouco sensitivo, e muito menos, se por meio de treino tiver despertado alguns dos sentidos internos, pode passar não só por Chicago ou mesmo a algumas milhas desta cidade, sem ter consciência de um profundo sentimento de depressão que o leva a recuar como diante de qualquer coisa impura, um sentimento de horror que não é logo facilmente reconhecido, e cuja origem não é imediatamente definida. Só falo do que conheço por minha experiência própria.

Sucedeu-me, um dia que me dirigia a Chicago, ler no comboio, como costumo, e nem sequer sabia que estava a uma distância considerável da cidade - porque Chicago ocupa uma enorme extensão, da qual não faz idéia, aproximada sequer, o estrangeiro que ali vai pela primeira vez, e porque é preciso muito mais tempo do que se pensa para chegar ao centro da cidade. - Ora eu, estando tranqüilamente sentada no meu compartimento, senti-me repentinamente invadida por um sentimento de opressão; não o reconheci imediatamente porque o meu pensamento estava ocupado noutra coisa, mas essa opressão aumentou tão fortemente que eu comecei a procurar a causa e depressa achei a razão. Então me lembrei de que ia atravessando o grande matadouro dos Estados Unidos. Era como se se passasse sobre uma mortalha de escuridão e miséria - este efeito psíquico ou astral produzindo, por assim dizer, uma espécie de véu que cobria toda esta imensa cidade.

Para aqueles que conhecem alguma coisa do plano astral, esta matança constante de animais, toma um caráter muito grave, e, além de todas as outras razões que podem ser invocadas para a elucidar, o espalhar contínuo destas influências magnéticas de temor, de horror, de cólera, de ódio e de vingança, atuam sobre as criaturas que vivem aí, e tendem a torná-las mais grosseiras, a degradá-las e a poluí-las.



(continua)



Edição da Loja Maitreya – Lisboa





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